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7 de abril de 2016

"COISAS NÃO DITAS"

Nas minhas andanças do tempo de seminário, encontrei relatos fascinantes, às vezes tão inacreditáveis que só mesmo um bom escritor de novelas pode criar tais histórias. Que nada! A “Vida da Gente” (não a novela) é uma grande fonte onde podem ser encontrados os mais diversos roteiros... As que ouvi até hoje me serviram de lição. Uma dessas foi quando conheci uma senhora de 78 anos. Eu estava junto com mais três irmãos fazendo visitas. Entramos em sua casa e ela deitada no sofá conversava conosco. As marcas do tempo e as limitações da saúde eram inegáveis. Além do pé inchado e dolorido, ela tinha algo mais a dizer.

Contou-nos sua história que, em título de resumo, foi marcada por uma espera de mais de 40 anos pelo marido que saíra para a farmácia e, pouco depois da saída, não deu mais notícias. Depois de um longo tempo, em um dia comum, encontrando-a da mesma forma que nós, o senhor de 81 anos entrou naquela casa, sentou-se no mesmo sofá em que estávamos e dividiu um pequeno espaço de tempo com ela, quebrando o silêncio e a distância de quase meio século.

Não conseguiram falar muito. Da parte dela, foi mostrado o filho, em um quadro na parede, que tinha a mesma idade do sumiço. Falou uma ou duas coisas mais, e pronto! Porque ele sumiu? “Não sei. Nem quis saber porque”, ela me disse. E continuou: “Só sei, meu filho que [...]”

E no espaço dessas reticências relatou inúmeras dificuldades vivenciadas durante esse tempo. Muitas delas, ainda presentes. Fui ouvindo e entendendo que ali estava continuando a conversa guardada por todos esses anos. Também acredito que ela precisaria de muito tempo para falar tudo o que queria. Imaginei várias situações de sua vida e ela lá, ensaiando, falando sozinha, desabafando... esperando o momento de estar com o principal interlocutor.

Mas, “o tempo foi passando, foi passando, foi passando”, como ela disse. Pensei em como seria viver algo dessa forma. E, às vezes vivemos. As “coisas não ditas” aqui, então, não são somente a falta de utilização sonora/verbal. Não. Tantas e tantas situações que vão sendo guardadas no coração e que tomam proporção grande, até ensaiamos, preparamos, mas, ficam ali por um bom tempo. Não são resolvidas.

O maior absurdo, talvez, não é o tempo (cronológico) da espera. A história dela ilustra e aponta pistas para pensar no perdão, na atitude, também na humanidade que é capaz de esperar, mas também é de se ausentar. Particularmente, penso que às vezes vivo situações em que as circunstâncias são mais favoráveis de se resolver, mas, nem sempre é assim.

À nós, as últimas palavras dela, foi para dizer que eu poderia escrever esse texto, e para reconhecer que Deus a fortaleceu durante todos esses anos. Fortaleceu nas situações, mas também no peso das “coisas não ditas”. Imagino que tantos outros elementos existam nessa história (tem a versão dele, de outras pessoas, históricas periféricas a essa, etc.).

O que deu tempo e pra mim valeu muito foi o relato, testemunho e as inúmeras coisas que consegui pensar e que aqui nesse espaço ficarão como “não ditas”.

Talvez você tenha as suas! Já ouviu a frase: "A vida é muito curta para..."?!? Pois.

Não espere muito para amar!

Paz e Alegria!

Pe. Flávio Porto

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