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17 de dezembro de 2015

Lições de feira livre

 Feira livre é espetacular! É uma explosão de cores, sabores, odores, cantores, narradores... Dizia um professor na época do curso de Filosofia: “quer saber o que um povo ta pensando?!? Vá na feira”. É! Pode ser! Eu, particularmente, sou atraído pelo jeito das pessoas. Fico ali imaginando o que passa na cabeça de cada uma. Quantas histórias e diálogos internos não estão ali. Certa feita, ainda estudante seminarista, estava eu na feira, acompanhando o padre que me acolhia em atividade pastoral. Ele me ensinava sua tática: no sábado de manhã, ia na feira, porque lá encontrava com todo mundo das comunidades e os “avisos paroquiais” também se faziam ali. Muito bom, né?!? Aprendi direitinho.. hoje faço isso! Pois... em meio a cumprimentos, abraços, sorrisos, “oia o padre”, “vai querer o que hoje amigo” etc, parei numa cena que se deu em três atos. Sabe quando a gente fixa o olhar em algo e só sai dali até entender tudo?!? No chão estava um senhor, idoso, com necessidades especiais físicas. Ele segurava alguns papéis na mão. Presumo que eram exames ou contas para pagar. Segurava uma lata que era para o depósito de contribuições dos passantes. Aliás, tava pouquíssima frequentada sua latinha. Uma senhora com camisa colorida (e olhe que ela conseguiu se destacar no meio de tanta cor), bolsa ao lado, cabelo “vou ali, volto logo, ninguém vai me ver mesmo”, passou por aquele senhor. Meio desajeitada com as compras tirou um punhado de moedas da bolsa. Aproximou-se do homem e colocou na lata algumas. Ato 1. Ela caminhou um pouquinho e de repente deu uma freada. Parou um pouco, voltou-se ao homem e ali colocou um pouco mais de suas moedas. Fui distraído um pouco pela voz fanha de outra senhora: “oia lá... será que ninguém aposenta esse homem, gente?”. Ato 2. Quase ia levantando hipóteses para a indagação dessa última mulher quando percebi que a descabelada se afastava aos poucos. Ela conseguiu ir mais longe um pouquinho. Freou novamente. Em um pequeno passo ia e voltava. Estava em dúvida de algo. Então, novamente aproximou-se do homem, com cara de “que eu tava fazendo mesmo?” e depositou todo o restante das moedas. Colocou-as e saiu mais depressa... Acho que ela sabia que se demorasse mais um pouco voltaria ali de novo na latinha do homem. Fiquei pensando o que poderia ter falado aos ouvidos daquela mulher. Aí tive mais tempo para hipótese e pensei: ela ouviu que podia um pouco mais! E ali foi minha lição de Feira. Sabe, na vida sempre podemos um pouco mais, mesmo que no primeiro ato parece-nos impossível ou temos a sensação de que já foi feito o suficiente. Fazemos com nossas relações fraternas, amorosas; com nossos afazeres, labutas, projetos; com nossa vida de oração; com nosso jeito de seguir a Cristo. Somos (sou) acostumados a “operar” no mínimo... na primeira “moedada”. Retemos o resto para nossa auto-suficiência, ou para nos assegurar em algo, deixarmos tranquilos com o que vem pela frente. E olhe que escutamos dentro de nós a voz de Deus que diz: ame mais, perdoe mais, volte atrás nesse posicionamento, ajude mais, EXPERIMENTE SER MAIS AMOR!!! E somos relutantes com nossas “míseras moedas” que podem acabar na primeira barraca que aparecerá pela frente. Cada um sabe o tanto que tem na bolsa, o que se escuta no coração, quanto pode dar. O que digo é que devemos pedir o auxílio de Deus para ir um pouco mais além. Claro, sem a graça dEle, tem situações que são impossíveis. Lembro-me do jovem rico que um dia parou Jesus no Evangelho (Mt 19, 16-22) - Será que foi em uma feira também?!? -. Penso na descabelada pobre. Os dois encararam o desafio de ir um pouco mais. Encararam a palavra CAPACIDADE em letras garrafais, piscando em luz colorida. Descobriram que podiam mais... Ele, talvez, não aquela hora. Ela, em três atos. Situações, contextos, intenções e reflexões diferentes entre esses dois personagens citados, mas uma coisa poderia colocar-lhes no mesmo texto: A capacidade que precisavam provinha da mesma origem: Jesus Cristo, aquele que ama e dá o exemplo de amar, de sair de si, de lavar os pés do próximo, de renunciar-se até as últimas conseqüências. Não é um amor fantasioso. Só pode ser DOM e, por assim ser, devemos pedir sempre a Deus. “Senhor, dá-me a capacidade de ir um pouco mais”. Alguém me cutucou, abraçou-me... Voltei-me ao furdunço da feira. A mulher sumiu colorida no meio das outras cores. A outra, atrás de mim, ficou murmurando ainda com a situação. E eu... É... num monte de coisas: posso um pouco mais! Ato 3.

Pe. Flávio Porto

Escritor, poeta, pensador e algumas vezes artista mas sempre um servo de Deus.

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